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terça-feira, 5 de março de 2019

Caricato Cidadão, por Claudio Domingos Fernandes




Ô caricato cidadão, preste bem a atenção
Não é bobeira, não
Você excreta asneiras, dia sim dia não
Teu racismo, teu machismo, teu homofobismo
É excreção, não é opinião

Ô caricato cidadão, você não é de bem não
Sai um pouco da rede,
Abre um bom livro,
Deixe de ser burro,
Seguir youtuber
Vai estudar, meu irmão!

Ô caricato cidadão, não é mimimi não
Você excreta asneira, dia sim dia não
Tua excrescência não é opinião
É tua imagem bosta,
Pode crer meu irmão

Ô caricato cidadão, você não é de bem não
De bem você não é, caricato cidadão
Você é sua excreção, tornada opinião
Sua excreção, tornada opinião


Claudio Domingos Fernandes

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Claudio Domingos Fernandes
Formado em Filosofia (Licenciatura), casado, dois filhos, trabalha na Secretaria de Educação de São Paulo, leciona Filosofia no Ensino Médio. Coordena Oficinas Culturais na Associação Cultural Opereta, onde ensina Italiano. É membro do conselho do Instituto de Formação Augusto Boal. É membro fundador da Associação Cultural Rastilho (A.CURA). Lançou "Vácuos Mundi" e "O Todo em Fragmentos". Facebook: Claudio Domingos Fernandes






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Balcão da Arte
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quarta-feira, 27 de junho de 2018

Eis a lógica da amizade..., por Joyce Gomes


Eis a lógica da amizade...

O sentimento é algo confuso de se compreender.

A pessoa liga, a outra não atende.

A pessoa manda mensagem e a outra não responde.

E isso se torna um ciclo vicioso.

Onde, na cabeça da segunda pessoa, acha que é perseguição.

E na mente da primeira, falta de compreensão.

Então, a primeira pessoa se pergunta “por que tem que ser assim?

E a segunda só diz “é amizade, nada mais”.

Mas, em outros tempos, (sabendo que a amizade existiu durante uns 15 anos),” pensa a primeira pessoa, “muitas conversas, momentos alegres e descontraídos, papos infundados, discurso sobre tudo, mas agora nada mais. O que mudou?

E a segunda pessoa pensa “é perseguição”.

E a primeira pessoa pensa “gosto tanto dela. Gosto da companhia dela. Quero contar as coisas que me acontecem, dividir pensamentos, sentimentos, gostos, refletir sobre tudo e nada”.

E a segunda pensa “continuo sendo perseguida”.

E a primeira pessoa reflete “não devo estar sendo legal, pois essa pessoa que se diz minha amiga, foge de mim, sendo que nunca ameacei, nem prejudiquei, diferente de seu ex-relacionamento... E essa ex-pessoa foi perdoada e eu sendo denegrida, pisoteada sendo apenas amiga”.

E a segunda pessoa continua com o pensamento obsessivo “estou sendo perseguida!


Joyce C. L. Gomes

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Joyce Cristina Leme Gomes
Professora da Rede de Ensino de Poá, Graduada em Letras (UBC) e em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda (UMC). Conquista da Menção Honrosa e de Prêmios com o grupo Vibe Comunicação na UMC: Relatório Acadêmico "Do Fusca ao New Beetle: Trajetória de Campanhas (Menção Honrosa - 2009)"; Painel, Relatório e Campanha Alternativa "Marketing Esportivo no Futebol" (Prêmio Excelência - 2010); Painel e Campanha Publicitária "Associação Cultural Opereta" (Prêmio Excelência - 2011). Participou do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC/UMC) com a pesquisa "Trajetória de campanhas do Fusca e o seu impacto sobre o consumidor" (2010/2011). Foi voluntária, de 2011 a 2013, como Secretária na Diretoria Executiva, bem como na Comunicação da Instituição Cultural Sem Fins Lucrativos Associação Cultural Opereta. Conquista do Prêmio (2011) e da Menção Honrosa (2012) no 7º e 8º Prêmio Mogi News/ Chevrolet de Responsabilidade Social com o Projeto "Passos da Paixão", da Associação Cultural Opereta. Recebeu convite e teve 10 poemas publicados na coletânea “Palavra é Arte”, da Cultura Editorial (2014). Atualmente desenvolve os blogs Anderson BorgesBalcão da ArteGuitarra Flutuante e Joyce Gomes: Professora e Publicitária.

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sexta-feira, 6 de abril de 2018

Administração Themer, por Claudio Domingos Fernandes


Em um maio de fins dos anos 90, um adolescente branco foi preso por tráfico. Ele voltava da escola. Apareceu morto num campo de futebol. Os policiais que o prenderam mirabolaram uma história de resgate, e se atribuiu a sua morte a execução de facções criminosas. Poucas pessoas se manifestaram contra o absurdo da história narrada pelos policiais. 

Josuelmo Santos, líder comunitário, presidente da Associação de Resistência da População Afrodescendente, foi um dos poucos a exigir esclarecimento a respeito das condições inexplicáveis da morte de um jovem sob responsabilidade da policia. Tanto fez que para desacreditarem-no, forjaram uma denuncia de desvio de recursos da associação. As pessoas mais próximas à Associação, descontente com seu interesse em defender um jovem branco, aderiram aos que o acusavam e passaram a exigir-lhe o cargo. 

Então, numa certa tarde deste maio, um certo Themer, propondo assumir sua posição na associação, assumiu o seguinte discurso: 
“de cada quatro pessoas mortas pela polícia, três são negras. Nossa causa é o povo preto da periferia. São nossos filhos que morrem todos os dias na guerra do tráfico, no fogo cruzado entre milícias, polícias e políticos pelo controle da comunidade. Nossa associação é pros manos é pras manas, pro povo preto. Deixa que os brancos clamem seus mortos, seus direitos. Devemos cuidar dos nossos.”
Josuelmo olhou para a assembleia com serenidade: 
“Camaradas, eu tenho uma causa, mas minha causa não me impede de enxergar que um ser humano foi morto de maneira covarde, não é um irmão preto, uma irmã preta, mas é um que morreu como nossos filhos morrem todos os dias. A proporção esta posta: são três negros a cada branco morto, mas a conta é sempre quatro seres humanos, quatro vidas, que se tornam quarenta, quatrocentas, quatro mil vidas ceifadas abrupta e brutalmente. Exigir a verdade para o Henrique, assassinado de maneira escusa, não me desvia de nossa luta. Ao contrário, ao garantir-lhe o direito à verdade, estou defendendo o direito de todos nós. Na luta por garantia de direitos não existe a minha causa, a sua causa, a causa do outro. A particularidade de nossa causa não nos deve tornar particularistas. É preciso a visão alargada, para além de nossa bandeira, uma visão que abranja a todos os que se tornam vítimas do descaso e da malicia dos poderes constituídos. Em nossa luta é preciso abarcar tantas outras causas: do direito à moradia à educação e à saúde, do direito à manifestação religiosa à opção sexual à igualdade dos gêneros nas relações de trabalho, do respeito à diversidade ao direito de a mulher sentir-se segura, no lar, no bar, no ônibus, no seu posto de trabalho, etc... Sem sermos capazes de sairmos de nosso gueto, não avançamos em nossas agendas. Se cada movimento se fechar em si, tornamos viável o totalitarismo, favorecemos o que deveríamos combater.” 
Josuelmo deixou a assembleia da Associação que ajudara a criar, arranjos políticos levaram Themer à presidência. 
De cada quatro pessoas mortas pela polícia, uma é branca. “Mas se a polícia matou é porque é bandido”, vamos repetindo, na administração Themer...
Claudio Domingos Fernandes

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Claudio Domingos Fernandes
Formado em Filosofia (Licenciatura), casado, dois filhos, trabalha na Secretaria de Educação de São Paulo, leciona Filosofia no Ensino Médio. Coordena Oficinas Culturais na Associação Cultural Opereta, onde ensina Italiano. É membro do conselho do Instituto de Formação Augusto Boal. É membro fundador da Associação Cultural Rastilho (A.CURA). Lançou "Vácuos Mundi" e "O Todo em Fragmentos". Facebook: Claudio Domingos Fernandes

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domingo, 4 de março de 2018

Depressão, por Joyce Gomes


Não se sabe ao certo quando se começa. Um dia começa e jamais terá um final. É um cessar de descontentamento. Choros e mais choros. Uma sensação de que nada é suficiente. Regado a uma depressão infinita. É uma vontade de dar fim ao próprio sentimento. É um contentamento não contente. Um chorar de loucura. É um clamar pela atenção. Mas atenção de quem? É um fim, fim de uma existência, de uma dádiva não seguida. Um perdoar, mas não perdoar. E o que se tem? Tristeza e uma vida desgraçada.

É um desejo de morrer. Não pelo que faz, mas pelo que se faz a fazer. E por tudo que será feito. E por todos que serão prejudicados com as verdades inverdades. E a pessoa depressiva não aguenta, não se aguenta.

Um momento de felicidade entregue a uma depressão louca e infundada. 

É a depressão e o choro em pessoa. E quando algo faz bem, manda-se embora e a pessoa acata. O que se quer? Um perdão, uma compreensão, a felicidade que há muito não se tem. 

Pode-se apenas pedir perdão. Perdão por tudo que se faz de errado. Perdão pelo que será feito. Mas, se mais uma vez você ficar sem falar com essa pessoa, ela morrerá. Morrerá de tristeza, de solidão... você se lembra de todas as coisas boas que foram faladas, nenhuma delas é o suficiente para você falar com o seu amigo?

Mil perdões é o que se pede. Só há uma solução para isso: aceitar. E fim.

Que tal recomeçar?

Joyce C. L. Gomes
21/11/2017

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Joyce Cristina Leme Gomes
Professora da Rede de Ensino de Poá, Graduada em Letras (UBC) e em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda (UMC). Conquista da Menção Honrosa e de Prêmios com o grupo Vibe Comunicação na UMC: Relatório Acadêmico "Do Fusca ao New Beetle: Trajetória de Campanhas (Menção Honrosa - 2009)"; Painel, Relatório e Campanha Alternativa "Marketing Esportivo no Futebol" (Prêmio Excelência - 2010); Painel e Campanha Publicitária "Associação Cultural Opereta" (Prêmio Excelência - 2011). Participou do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC/UMC) com a pesquisa "Trajetória de campanhas do Fusca e o seu impacto sobre o consumidor" (2010/2011). Foi voluntária, de 2011 a 2013, como Secretária na Diretoria Executiva, bem como na Comunicação da Instituição Cultural Sem Fins Lucrativos Associação Cultural Opereta. Conquista do Prêmio (2011) e da Menção Honrosa (2012) no 7º e 8º Prêmio Mogi News/ Chevrolet de Responsabilidade Social com o Projeto "Passos da Paixão", da Associação Cultural Opereta. Recebeu convite e teve 10 poemas publicados na coletânea “Palavra é Arte”, da Cultura Editorial (2014). Atualmente desenvolve os blogs Anderson BorgesBalcão da ArteGuitarra Flutuante e Joyce Gomes: Professora e Publicitária.

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sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Sem título, por Anderson Borges


Aonde está a estética de meus versos? 
Talvez no mesmo lugar aonde perdi a vontade de me adequar às estruturas 
As palavras são desordenadas como o centro da cidade 
As ideias atropeladas como a rotina hiperativa 
Quisera ter a capacidade de transcrever o conflito entre a harmonia desejada 
E o caos necessário 
Porém só saem esses versos 
Sem beleza, métrica ou qualquer traço de estética 
Como restos de uma virtude desejada 
Mas convertida em grotesca necessidade de externar o descontentamento...

Anderson Borges

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Professor da Rede de Ensino de Suzano, Graduado em Pedagogia (UMC), Pós-Graduado em Educação Especial (Uninove), participante da Diretoria Executiva da Associação Cultural Opereta, bem como do Núcleo Teatral e Comunicação da Opereta e integrante do Cia. Siso Teatral. Participou do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC/UMC) com a pesquisa "Inclusão Escolar: O Processo de Escolarização de Egresso de Escola Especial Marcado pela Tentativa de Retorno Após Inclusão de Ensino Comum", sob a orientação da Profª. Drª Tatiana Platzer do Amaral (Menção Honrosa - 2008). Participou da Oficina de Montagem Teatral "Passos da Paixão" (de 2009 a 2013); do Curso de Artes Cênicas pelo Ponto de Cultura da Associação Cultural Opereta "Projeto Mãos à Obra" (2010), do Curso Livre de Artes Cênicas Associação Cultural Opereta/ APAC (2011); da Oficina "O Espaço Cênico e a Indumentária" na Oficina Cultural Mazzaroppi (2010). Atuou nos espetáculos teatrais "Passos da Paixão" (Direção Cia de Teatro Roda Mundo, Associação Cultural Opereta - de 2009 a 2013); O Auto da Luz (Direção Marco Senna, Núcleo Teatral Opereta - de 2009 a 2012); O Parturião (Direção Patrícia Albuquerque, Associação Cultural Opereta - 2010); Kibuxixo (Direção Terezinha Mesquita, Cia Siso Teatral / Cia Teatral Garra - 2011); Epístola (Direção Terezinha Mesquista, Cia Siso Teatral / Cia Teatral Garra - 2011), A Farsa do Advogado Pathelin (Direção Terezinha Mesquista, Cia Siso Teatral - 2011); A Peça Didática de Baden Baden (Direção Fernandes Júnior, Associação Cultural Opereta/APAC - 2011); Almas de Pedra (Direção Dílson Rufino, Núcleo Teatral Opereta - 2011); Almas Peregrinas (Direção Ailton Ferreira, Núcleo Teatral Opereta - 2012/ 2013); Cabaré (Direção Fernandes Júnior, Cia Siso Teatral - 2012); A Última Instância (Direção Wolney de Assis, Cia Siso Teatral - 2012/2013); Fragmentos: No Escritório de Um Advogado (Direção Geral Tuane Vieira, Direção de Cena Cibele Zuchi, Cia Siso Teatral - 2013). Atualmente exerce a função de Direção Geral da Cia Siso Teatral. E é um dos organizadores do blog Balcão da Arte.

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sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Racismo, por Claudio Domingos Fernandes

0,1% mais rico da população se apropria de 68% do crescimento da renda nacional. E a alta parcela da renda dos mais ricos, que é isenta de Imposto de Renda, nos deixa ainda mais distantes de países com uma distribuição mais igualitária. ( http://www1.folha.uol.com.br/coluna...)

Embora, entre nós, o racismo atinja com maior evidência as pessoas pretas, eu não entendo o racismo como um embate de pessoas brancas contra pessoas pretas. O racismo é uma teoria política em defesa da expropriação econômica, política, cultural que condena cerca de 80% das pessoas a viverem em condições de pobreza ou extrema pobreza. A pobreza é uma produção econômica, o racismo é sua justificação. Concepções raciais existem desde a primeira injustiça social: Quando alguém por sua força e ou engenho, se declarou senhor e os demais a ele se submeteram. Sempre se precisou justificar a dissimetria entre a opulência dos que governam e a extrema carência dos que se submetem ao governo. Sempre se precisou explicar porque um sujeito come três pães, e uma comunidade inteira apenas migalhas. De tal modo, imiscuído com doutrinas religiosas e filosóficas, o racismo sempre se fez presente como justificativa possível, não para as diferenças entre os homens, mas para as desigualdades sociais. E ao fim do século XIX, “concederam ao pensamento racista dignidade e importância, como se ele fosse uma das maiores contribuições espirituais do mundo ocidental” (ARENDT, H. A origem do Totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras. 2002, pp. 189). 

Hoje, o racismo encontra guarita segura nas teorias meritocráticas, que defendem com indisfarçável arrogância o direito, por mérito (quase divino) dos “melhores” postos na sociedade, aos grupos sociais que detêm o poder econômico e político e determinam os critérios de acesso e produção do conhecimento, como os critérios de ascensão social.

Racismo é uma justificativa de grupos que se consideram onipotentes, que se autorizam expropriar e explorar outros grupos sociais. Como ação política promove a exclusão econômica e social e nega os princípios da igualdade entre os homens, atacando os direitos humanos e submetendo três quartos da população humana a viverem em condições de privação e miserabilidade. 

Negra não é a condição de desprestigio econômico, político, cultural e social apenas de homens e mulheres de pele escura – por questões históricas ainda não superadas, não desconsideramos que entre nós esta é a realidade mais pungente, e que quanto mais escura a pele da pessoa mais ela carrega os efeitos imorais da expropriação e exploração dos opulentos senhores da economia, da política, da produção de saberes –, negra é a realidade social em que se encontram todos aqueles que por sua condição econômica, social e política são, antes de tudo humilhados, desvalorizados como pessoas, destituídos de seus direitos fundamentais: educação, saúde, moradia, trabalho, lazer, segurança, sustentabilidade. E não obstante estas carências de ordem política, são marginalizadas, criminalizadas, execradas, executadas. 

Negra não pode ser um termo que encerra um grupo humano e o contrapõem a outro grupo, pretensamente hegemônico. Negra é a condição econômica, social, cultural e política da imensa maioria dos homens e mulheres que ainda não perceberam que certos acirramentos ideológicos, certos conflitos políticos, certas guerras, são estratégias políticas, apeadas em justificativas raciais.
O acirrado debate sobre falsas diferenças entre homens e mulheres, entre brancos e pretos, escondem-nos as injustiças sociais, nos dividem em bandeiras diversas. E este acirramento e essa divisão de nossos interesses: que haja uma melhor distribuição dos recursos econômicos, da participação política, do acesso à apreensão dos bens culturais universais, promovendo igualdade e justiça social, interessa e é motivado pelos racistas de fato: os que defendem o status quo da economia, da política, da produção de saberes como mérito e não como o que é de fato: expropriação. 

Se um meu vizinho, ou mesmo um estranho, num debate de coisas rasas ou mesmo graves, no calor das discussões me injuria devido a cor de minha pele, ao meu sexo ou minha origem, eu não o considero racista, embora a injuria seja. Ela esta colocada nele e talvez ele não se de conta disso. Dependendo do lugar e da hora, o sujeito que me chama de “negro safado”, ou “preto dos infernos” eu apenas o olho com comiseração e lamento sua estultícia. Mas se o sujeito é conivente com as doutrinas políticas, econômicas, culturais que separam os humanos e os classificam, se ele empresta seu pensamento às obscenas escusas que mascaram as desigualdades sociais e suas injustiças, mesmo num instante de inconsciência, o que expressa é uma afronta, uma ignomínia a ser combatida.

A injúria de meu vizinho não é racismo. É uma incompreensão de si mesmo. Já as teorias neoliberais de qualquer ordem são racistas e servem a justificar um sistema expropriador e excludente.

Em toda riqueza há o sangue, o sofrimento, a submissão de centenas de seres humanos. É preciso uma justificativa para a assimetria entre os que se empanturram ao esbanjamento e os que colhem sua sobrevivência em lixões. DEUS, RAÇA, MÉRITO, sempre serviram a tamanha infâmia.

Claudio Domingos Fernandes

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Formado em Filosofia (Licenciatura), casado, dois filhos, trabalha na Secretaria de Educação de São Paulo, leciona Filosofia no Ensino Médio. Coordena Oficinas Culturais na Associação Cultural Opereta, onde ensina Italiano. É membro do conselho do Instituto de Formação Augusto Boal. É membro fundador da Associação Cultural Rastilho (A.CURA). Lançou "Vácuos Mundi" e "O Todo em Fragmentos". Facebook: Claudio Domingos Fernandes

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segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Por que celebrar Zumbi de Palmares?, por Claudio Domingos Fernandes


Palmares é o caso exemplar do enfrentamento inter-racial. Ali, negros fugidos dos engenhos de açúcar ou de vilas organizaram-se para si mesmos, na forma de uma economia solidária e uma sociedade igualitária. (Darcy Ribeiro. O Povo brasileiro, A formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras. 1997, pp. 173)
 ... Olha só aquele clube que da hora,/ Olha o pretinho vendo tudo do lado de fora/ .../ Ele apenas sonha através do muro... (Racionais MC´s: Fim de Semana no Parque)


Ainda há quem coloque a questão sobre o porquê celebrar Zumbi de Palmares. Alguns veem em tal celebração uma afronta, outros revanchismo. Há quem desdenhe e há quem pense em vitimismo. O certo é que Zumbi, Palmares, ainda assombra nossa sociedade patriarcal e escravista. A titulo de pontuar o porque das comemorações de Zumbi de Palmares e da Semana da Consciência Negra, o presente texto acompanha a obra de Lilia M. Scwarcz e Heloisa M. Starling, Brasil Uma Biografia. Não o seguiremos, porém, de forma literal. Procuramos explicitar, algumas vezes, o não dito nos relatos das autoras. 

Então, por que celebrar Zumbi de Palmares?

Porque em 300 anos milhões de homens e mulheres não viajaram espontaneamente de suas terras com o fito de povoarem outras terras pelo mundo. Não! Foram brutalmente extraídos de seu solo, foram, como animais, encerrados em porões de navios e traficados como mercadoria-moeda num negócio que subsidiou o nascente capitalismo. E o Brasil recebeu 40% dos africanos impiedosamente arrancados de suas terras. Cerca de 4 milhões de homens e mulheres aqui aportaram para servirem de mercadoria e trabalharem em regime de escravidão.

Esses homens e mulheres, os que resistiram a longa travessia marítima, aqui foram marcados pela água do batismo e pelo ferro em brasa. Tiveram elos culturais e familiares rompidos. Foram extorquidos do próprio corpo, tornado propriedade coisa-moeda de Senhores de engenho. E sob açoite, sevicia e castigos de toda sorte, produziram as riquezas de seus senhores e serviram como instrumento de prazer e gozo sádicos desses mesmos senhores. Muitos morreram de exaustão, subnutrição, sob tortura, suicídio. É em memória deste povo vilipendiado e impiedosamente massacrado que se celebra Zumbi de Palmares.

Porque a escravidão enraizou-se de tal forma que deixou de ser privilégio de grandes senhores de engenho. “Padres, militares, funcionários públicos, artesãos, taberneiros, comerciantes, pequenos lavradores, pobres e remediados e até libertos possuíam escravos...” A escravidão “moldou condutas, definiu desigualdades sociais, fez de raça e cor marcadores de diferenças fundamentais, ordenou etiquetas de mando e obediência” e criou uma sociedade condicionada pelo paternalismo e por um patriarcalismo obtuso, mesquinho, impiedoso. Nossa elite é uma horda de sádicos... 

Quando não mais serviam, pois o sistema econômico passou a exigir nova forma de produção e de mão de obra, homens, mulheres, crianças, idosos, doentes foram libertados e abandonados à própria sorte sem instrução, sem direito à terra, sem direitos políticos, sem assistência econômica, e carregados de injurias (“coisa de preto”, por exemplo, como forma de humilhação). E, após cem anos de sua liberação, “ainda são pouco numerosos os seguimentos da “população de cor” que conseguem se integrar, efetivamente, na sociedade competitiva e nas classes sociais que a compõem”. E “a ideia da ‘democracia racial’ acabou sendo expediente inicial (para não se enfrentarem os problemas decorrentes da destituição do escravo e da espoliação final de que foi vítima o antigo agente de trabalho) e uma forma de acomodação a uma dura realidade (que se mostrou com as “populações de cor” nas cidades em que elas se concentravam, vivendo na piores condições de desemprego disfarçado, miséria sistemática e desorganização social permanente)” (Florestan Fernandes. O Negro no mundo dos Brancos. São Paulo: Global, 2006, p. 46). Ainda, “quanto mais escura a pele do brasileiro, da brasileira, mais se sente o fosso de nossas desigualdades e as marcas ingentes da violência institucional e do sadismo de determinados segmentos sociais.

Porque há um extermínio sistemático de nossa gente nas periferias e porque se persegue indisfarçadamente adeptos das religiões de matriz africana, se procura impedir nosso acesso à universidade pública. Por tudo isso, celebramos Zumbi de Palmares.

Zumbi de Palmares não é um herói; é um símbolo de resistência, de luta, de denuncia contra o que persiste de preconceituoso e odioso contra os homens e mulheres de pele escura e contra as manifestações religiosas e culturais de matriz africana.

Celebrar Zumbi, comemorar a Semana de Consciência Negra é recordar que, não obstante todas as adversidades, todo desrespeito a sua dignidade, todo sofrimento sofrido, os extraviados de suas terras e traficados como mercadoria não se renderam à barbárie e ao sadismo de seus senhores. E fizeram mais do que apenas sobreviver, organizaram-se, lutaram e estabeleceram um espaço em que se pode sonhar com liberdade e resgate de sua identidade. Palmares foi uma brecha de esperança aberta no coração do sofrimento imposto pelo sistema escravista. “Para fugir da condição de “peça” [coisa-moeda-objeto sádico], os escravizados procuraram nas brechas do sistema espaços para recriar suas culturas, [cultivar] desejos, sonhar com a liberdade e com a reação”, restabelecer seus laços com seus orixás e ancestrais, dar-se a dignidade roubada. “Jamais abriram mão de serem agentes e senhores de suas vidas... [E] a resistência escrava deu origem a mocambos ou quilombos...” Celebrar Zumbi de Palmares é reviver está brecha e anunciar a esperança de construirmos uma nação livre do preconceito e das injurias contra os homens e mulheres por causa da cor de suas peles.

Palmares foi o maior e mais persistente quilombo e significou uma alternativa concreta à ordem escravista... “Tornou-se um problema real e bastante amedrontador para o [escravismo colonial e para as autoridades, e precisava ser combatido...” A queda de Palmares e a execução de seu maior líder, Zumbi, serviram às autoridades coloniais de ontem e serve aos autoritários de hoje como modelo para a repressão e o sujeitamento das camadas mais pobres de nossa nação. A degola de Zumbi ilustra o que ocorre aos que reagem à sádica exploração não apenas econômica, da grande massa de brasileiros e brasileiras.

Aos que negam ao trabalhador condições dignas de trabalho, direitos constitucionais, liberdade de reivindicar respeito às suas crenças e tradições culturais, reconhecimento econômico e favorecimento de acesso à formação de qualidade, celebrar Zumbi não é incompreensível: é uma afronta; uma ameaça.

Para os milhares de homens e mulheres, ainda que não saibam – ainda hoje extorquidos de seus corpos, de seus sonhos, de seus desejos, espezinhados, ridicularizados, humilhados, por uma elite econômica, política e religiosa, patriarcal, mesquinha, tosca –, Palmares, e seu líder maior Zumbi, se converteram em luta por inclusão social, conquista de direito, resgate de identidade cultural de respeito a seus cultos, desejo de uma sociedade menos desigual.

Enquanto houver injustiça, enquanto os homens e mulheres de nossas classes populares se sentirem ameaçados, intimidados, desrespeitados por sua cor de pele e por suas tradições religiosas, por suas manifestações culturais, que viva Zumbi e que se faça memória de Palmares.

Em resumo, celebrar Zumbi é manter viva a história de dor e sofrimento de homens e mulheres que não viajaram por vontade própria, mas, feito mercadoria, foram desterrados e tornados escravos em terras que não eram sua. Não podemos esconder o sangue que se derramou para alimentar os sonhos de riqueza e poder de nosso patronato e nossa elite política. Não podemos esconder que ainda se derrama sangue em nossas periferias e a vitima são nossos filhos. Para nós celebrar Zumbi de Palmares é, como dizem Mano Brown e Edy Rocky, produzir “um raio X do Brasil”.

Claudio Domingos Fernandes

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domingo, 5 de novembro de 2017

Eu Não Sou Negro, por Claudio Domingos Fernandes

Lincharam um homem
Entre os arranha-céus,
(Li no jornal)

Procurei o crime do homem
O crime não estava no homem
Estava na cor da sua epiderme
Solano Trindade, Civilização branca, nova Alexandria: 2007

Dia destes, meu filho chegou triste da escola. Não quis comer, desinteressou-se do cachorro, exilou-se acabrunhado, silente, em seu quarto. Algo incomum num menino vivaz, espontâneo, falante. Procurei saber o que se passava: “Nada, quero ficar sozinho”. Deixei-o na dele, precisava ocupar-me de uns relatórios, revisar um artigo. Um pouco antes do café da tarde, ele se acostou a mim e ficou me observando terminar minha revisão. Perguntei-lhe: “Tudo bem? O que houve?” Não obtive resposta. “Deve ter balas ali na minha mala” apontei-lhe a mala acostada a uma estante. Pediu-me colo. “O que é nefando? E lúgubre?”, perguntou-me com voz chorosa, olhar apagado. “Lúgubre se diz de uma pessoa triste, de uma situação triste. Nefando é algo indigno de nomear, é algo do qual não se fala, porque é algo muito vergonhoso.” “Não quero ser negro!” falou-me com voz magoada. “E porque? O que tem de errado ser negro?”, perguntei-lhe estupefato. “A professora disse..., pediu pra gente pesquisar no dicionário. E o dicionário diz que negro é sujo, encardido, lúgubre, nefando. Eu não sou sujo. Eu não quero ser negro...: não quero ser negro!” “Querido”, disse-lhe, “você tem razão, nessas acepções nós não somos negros e os dicionaristas deveriam rever-se.” Expliquei-lhe que, talvez a professora não tenha alcançado seu objetivo, e procurei esclarecer-lhe que negro não era uma condição, mas uma posição ante a vida e que a cor de nossa pele não nos determina. [...]. Dormiu em meu colo. Enquanto me preparava um café, fiquei elucubrando o tema, que me levou a produzir o que segue***

“(…) O que os racistas têm que fazer é tratar de encontrar em seus próprios corações em primeiro lugar porque foi necessário ter um negro, porque eu não sou um negro eu sou um homem (…) Se eu não sou o negro aqui, e vocês o inventaram, vocês os racistas tem que descobrir por que. E o futuro deste pais depende disso, se você é capaz ou não de fazer essa pergunta”. James Baldwin, 1963.

Nós somos humanos. Entre humanos não há raças. Há diferenças de gênero, sociais, econômicas, culturais, há desigualdades de oportunidades, de acesso aos bens produzidos, aos recursos naturais, ao uso da terra,ao conhecimento. Desde sua origem, os humanos espalham-se por todo planeta, ajustando-se a diversificados relevos geográficos e variadas temperaturas e intempéries climáticas. Algumas bastante inóspitas. As tonalidades de pele dos humanos são características de sua adaptação a essas diferenças geográficas e climáticas, e à miscigenação. De tal modo a tonalidade de pele dos humanos varia em uma escala de matizes consideráveis. Mas seja o sujeito de pele mais clara possível, seja o de pele mais escura possível, pertencem a uma e mesma espécie. E a espécie humana não se divide em raças. 

A divisão dos homens em raças é uma invenção covarde, maliciosa e, ela sim, nefanda, de homens sem escrúpulos, gananciosos, orgulhosos de suas barbáries. Homens guiados pela cobiça, pela torpeza, cegados pelo desejo de tudo possuir. Procuraram na invenção das raças uma justificativa às suas ignomínias.

Os dicionaristas deveriam rever o verbete Negro. Na verdade deveriam aboli-lo, pois o negro, como condição, não existe. 

O racismo existe e o combato. Ele é responsável pelo extermínio dos povos nativos, ontem e hoje. Pelo ingente tráfico de homens e mulheres do continente africano, aqui tornados escravos. O racismo está presente na persistente negação à terra aos nativos e quilombolas, no extermínio sistemático destes povos e de jovens de nossas periferias, na indisfarçada insatisfação de setores da sociedade com o ingresso de nossos filhos da nas universidades públicas. Na história recente da humanidade não podemos esquecer Auschwitz, sua face mais nefanda.

O racismo existe! O negro não! O negro, como raça, é uma invenção, Na citação de James Baldwin eu usei racista, no lugar de branco do texto original. É preciso considerar que nem todo homem branco é racista e que o racismo não é uma peculiaridade de homens brancos. Também o branco é uma invenção. A raça não existe, existe o racismo. A cor de minha pele não me define, a raça só existe como disposição a lutar contra toda forma de ódio e contra toda tirania.

Neste sentido, sem ser religioso, talvez se possa dizer, que ter raça é ser instrumento de paz e levar amor onde há ódio..., esperança onde há desespero, alegria onde há tristeza, luz onde há trevas, liberdade onde há opressão, dignidade onde há humilhação, partilha onde há fome e exploração...

O que segue escrevo para meu filho que tem razão: nós não somos negros, mas temos raça. 

MENINO NÃO CHORE A COR DE TUA PELE

Menino não chore a cor de tua pele, não chore teus cabelos, o odor de teu suor. Não chore a ignorância dos que odeiam a si mesmos antes de odiarem a ti.

Brinca, menino, com teus sonhos. Faz do vento teu companheiro, da tarde caindo, uma canção. Corre ao lombo de um cavalo, banhe-se nas águas do rio, converse com os pássaros e os chame: irmãos. Cultive, menino, a paz.

Raça, menino, não é uma condição. É postura firme, corajosa contra a opressão. É luta de quem luta contra o ódio de quem primeiro se odeia e destila-se contra uma nação.

Menino não chore a cor de tua pele. Ela é tua proteção. Não desdenhe os que, por pura mediocridade e hipocrisia, destilam desinformações, cativam os ignorantes e os que desejam poder e riqueza, e alimentam ódio em seus corações. Não os desdenhe, repito, menino. Mas, dê conta dos que te amam e te ensinam a amar como escolha e responsabilidade, como solidariedade...

Dê conta dos que te amam, menino, e brinque com a esperança; arranque-a de teus livros. Não és a cor de tua pele e se tens raça é coragem, é bandeira que se impunha contra a dor, a fome, a humilhação. Tem raça quem se impõem contra a opressão.

Não chore a cor de tua pele menino, não chore teu cabelo, o odor de teu suor. Não tenha vergonha do que não és. Brinca, que é tempo de tua infância. Corre com o rio ou livre no lombo de um cavalo, suba em árvores, converse com pássaros, cante às flores e imagine em cada nuvem povos que se abraçam e dividem o pão. Lembre de teus ancestrais, de seus grilhões, da expropriação de seus sonhos, seus desejos e paixões; da luta que travaram, e mesmo sem condição de vencer a vilania, da resistência que impuseram. Raça é fazer memória e resistir; não é uma condição, é uma postura contra o extermínio de nossos jovens em terras quilombolas, nas reservas nativas e nas periferias de nossos centros urbanos. 

Não é a cor de tua pele que te faz homem menino. É amar a vida, a liberdade, uma só humanidade. E raça é disposição a lutar contra toda tirania, contra a insensatez dos que expropriam, dos que traficam vida, negam direitos, produzem fome e sofrimento e executam homens e mulheres por ambição.

Tenhas raça menino contra toda opressão. Mas agora brinca, brinca e sonha, e veja nas estrelas ao redor da lua homens partilhando o pão. Não és tua cor menino: és esperança em nosso coração.

Claudio Domingos Fernandes

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Claudio Domingos Fernandes
Formado em Filosofia (Licenciatura), casado, dois filhos, trabalha na Secretaria de Educação de São Paulo, leciona Filosofia no Ensino Médio. Coordena Oficinas Culturais na Associação Cultural Opereta, onde ensina Italiano. É membro do conselho do Instituto de Formação Augusto Boal. É membro fundador da Associação Cultural Rastilho (A.CURA). Lançou "Vácuos Mundi" e "O Todo em Fragmentos". Facebook: Claudio Domingos Fernandes

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domingo, 29 de outubro de 2017

Menos Paulo Freire, Mais Bolsonaro, por Claudio Domingos Fernandes

Em uma diáfana manhã parnasiana de um azul de soneto deparei-me com Nelson Rodrigues. Tomamos juntos o trem para a Capital. Sujeito de prosa boa esse Nelson. Tornou a viagem, geralmente um perrengue, menos incomoda. O tempo passou e não percebemos. Não obstante torcedor do Fluminense, Nelson é um futebolista genial. Ufanista de nosso escrete canarinho, admirador confesso de Garrincha e Pelé, Nelson se mostra um profundo conhecedor de nosso estofo. Embora lamente, vez ou outra, nosso “complexo de vira-lata”, ele acredita no brasileiro e afirma: “o brasileiro é uma nova experiência humana. O homem brasileiro entra na história com um elemento inédito, revolucionário e criador: a molecagem.” À medida que o trem avança, e os espaços vão sendo disputados, a cada nova estação, vou me deixando convencer que suas crônicas são “um dado fundamental para sociólogos, historiadores e políticos” e que “este país é uma descoberta contínua e deslumbrante”. Estamos quase chegando a nosso destino, quando ele me diz: “nossa resenha ensina mais sobre o país do que Os sertões, no princípio do século. Fazia referimento à clássica obra, de Euclides da Cunha. A viagem chega a seu destino, espanta-me não perceber o tempo passar. Tenho que despedir-me de Nelson e entregar-me ao dinamismo dos negócios humanos e seu tédio cotidiano.

Passo a jornada produzindo relatórios que serão assinados e engavetados sem serem lidos, tomando café, consultando o relógio, tentando certa sociabilidade, participando de um ou outro debate de natureza inútil. Alieno-me. Retomo e rumino fragmentos do agradável encontro com Nelson. Não precisa muito, o próprio Nelson está ao meu lado...

O brasileiro não é um tipo único. Em Nelson, dois modelos se destacam: o “pau de arara”, o “subdesenvolvido”. “O pau de arara é um tipo social, humano, econômico, psicológico...” “Vamos imaginar”, diz-me Nelson, tentando ilustrar-me seu “pau de arara”, “Vamos imaginar esse pau de arara na beira da estrada. Que faz ele? Lambe uma rapadura. E além de lamber a rapadura? Raspa, com infinito deleite, a sua sarna bíblica... Não basta ao miserável a sarna, nem a rapadura. Ainda acrescentam a humildade.” E tem mais: “o sujeito é roubado, ofendido, humilhado e não se reconhece nem o direito de ser vítima.” O “subdesenvolvido” é o “brasileiro que não gosta de brasileiro”, um Narciso às avessas”, “vai ao estrangeiro e, em vez de conquistá-lo, ele se entrega e se declara colônia” (veio-me em mente um certo nosso deputado em recente viagem aos EUA). O “subdesenvolvido” tem vergonha de sua condição nacional, cospe na própria imagem, desdenha o que produzimos, gostaria de ser um Lord inglês. Negam nossa história, negam nossos tímidos avanços, nossas poucas conquistas, nossos poucos homens e mulheres que se destacam na arte, na cultura, no esporte. Desdenham nossas potencialidades, vendem impotência e frustração. O subdesenvolvido de Nelson, são os “entendidos” que não têm um mínimo de isenção, de objetividade, de apreço aos fatos. Ressentidos com os fatos, os “entendidos” parecem dizer: “se os fatos não confirmam o que escrevo, pior para os fatos”. Os “subdesenvolvidos” de Nelson limitam-se a vender depressão, demonstram pouco apreço a nosso povo. Sonham com uma sociedade restrita. Nela não há “um único e escasso preto. E nem operário, nem favelado, e nem torcedor do Flamengo...” (ou do Corinthians, ou do Bahia). No Brasil dos subdesenvolvidos não cabem “paus de arara”, só há lugar para “os filhos da grande burguesia, os pais da grande burguesia, as mães da grande burguesia. Portanto, as elites”. 

Quando deixo a repartição, a tarde declina anunciando uma noite parnasiana, com um luar de soneto. Decido caminhar pela cidade contemplando figuras de Portinari, assumindo as marquises, revirando lixos, homens-bichos, dos versos de Bandeira, me perguntando: não obstante seu realismo, nos é possível, como em certas passagens de Nelson Rodrigues, acreditar no brasileiro e deixar de ser esse embate de subdesenvolvidos e paus de arara?

Chego em casa, desfaço-me da bolsa, do paletó, desato o nó da gravata. Descanso Nelson Rodrigues entre Borges e Murilo Rubião. Ligo a televisão, passo o canais entediado. Em uma estação qualquer, um subdesenvolvido, um lorpa, rosna: “menos Paulo Freire, mais Bolsonaro”. E o pascácio continua: “menos diálogo, menos amorosidade, menos confiança no ser humano, menos esperança... Menos negros, menos homossexuais, menos direitos”. Como diria Nelson: é um “quadrúpede de 28 patas!”. Para evitar a insônia ou a hipótese de um pesadelo, tomo os remédios. Durmo, não hei de sonhar...

Claudio Domingos Fernandes

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Claudio Domingos Fernandes
Formado em Filosofia (Licenciatura), casado, dois filhos, trabalha na Secretaria de Educação de São Paulo, leciona Filosofia no Ensino Médio. Coordena Oficinas Culturais na Associação Cultural Opereta, onde ensina Italiano. É membro do conselho do Instituto de Formação Augusto Boal. É membro fundador da Associação Cultural Rastilho (A.CURA). Lançou "Vácuos Mundi" e "O Todo em Fragmentos". Facebook: Claudio Domingos Fernandes

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