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domingo, 17 de junho de 2018

Anthuérpia de Assunção Ramires, por Claudio Domingos Fernandes

Anthuérpia de Assunção Ramires, a terceira e a mais longeva das doze filhas de coronel Ramires, passou em seus aposentos a maior parte de sua fugaz existência. Tia a assistiu em seus últimos anos e, com vó, fazia-lhe unguentos, banhos e rezas para lhe tirar quebranto. Certa vez as acompanhei. Castigo por espiar as formas de prima por entre frestas e buracos de fechadura...

A menina era magríssima, olhos desalentados, esbugalhados, a pele pálida de veias esverdeazuladas, cabelos corrediços esbranquecidos, a voz lhe sumia entre tosses e o sangue que cuspia numa vasilha de prata. Deixei-a aturdido, com uma forma de angústia que me rodeia até hoje. Seu passar foi um acontecimento no arraial. Coronel mandou trazer ataúde da cidade todo forrado em cetim, encomendou vestido de noiva a Dona Zé, e exigiu os ofícios presididos pelo bispo em pessoa.

Preparava-me para as confissões. Apareceu-me com sua figura pálida no vestido de noiva. Creio que cheguei ao tom de sua palidez. Por um instante o coração pareceu-me não responder, suei e molhei-me todo. Ela sorriu-me um sorriso sem brilho, os olhos esbugalhados envolviam-me. Sussurrou em meus ouvidos sua voz fugidia: “não há lugar para mim em parte alguma, nem na morte”...

Deixei a igreja vertiginoso. Fiquei dias abismado. Vó recorreu às suas rezas e quebrantos. Depois de um período longo de mudez, expliquei a tia o acontecido. Tia mandou rezar missa para as almas do purgatório. Nunca mais soube o que é dormir sem sobressaltos. 

De repente, voltando da caminhada matinal, resolvi sentar próximo ao lago, debaixo de uma mangueira, e acompanhar o nado descompromissado de um grupo de patos: “Enterraram-me viva”, senti aquela voz característica sussurrando em meus ouvidos. Fiquei atônito, subiu-me um calafrio, desfaleci. Acordei no pronto socorro.

Enquanto espero ser liberado, folheio o Correio de São João de Curvelo, que entre outras curiosidades informa: “durante a exumação de uma antiga filha da cidade, pertencente à família dos Ramires, notou-se que a posição do corpo não correspondia à posição original, como se o mesmo tivesse se movido”. Telefono imediatamente para tia: “A bença tia! Como é mesmo aquela oração pras almas do purgatório?”

Claudio Domingos Fernandes

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Claudio Domingos Fernandes
Formado em Filosofia (Licenciatura), casado, dois filhos, trabalha na Secretaria de Educação de São Paulo, leciona Filosofia no Ensino Médio. Coordena Oficinas Culturais na Associação Cultural Opereta, onde ensina Italiano. É membro do conselho do Instituto de Formação Augusto Boal. É membro fundador da Associação Cultural Rastilho (A.CURA). Lançou "Vácuos Mundi" e "O Todo em Fragmentos". Facebook: Claudio Domingos Fernandes

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quarta-feira, 18 de abril de 2018

Fotografia, por Claudio Domingos Fernandes




Ao fundo, o mar em uma típica manhã de verão, de um maio atípico. Vê-se, no limite onde as ondas descansam, um casal caminhando de mãos dadas em direção ao espectador. Em primeiro plano o grupo de gazeteiros. À esquerda, em sua tradicional regatas do Flamengo e erguendo um Passport paraguaio, Otaviano, que depois da formatura ingressou na carreira militar, seguindo os passos do pai, do avô, do bisavô e assim por diante. Parece-me que está na reserva e fixou morada em algum lugar remoto do Tocantins. Enlaçando-o e fazendo o clássico gesto de “Paz e Amor”, Hetelvina, cujos avolumados seios mal se acomodam na restrita peça superior do seu fio dental preto. Dizem que vive na Europa, onde leciona Formação do Povo Brasileiro em uma de suas universidades. A abaçanada de belos olhos esverdeados a seu lado e com o mamilo esquerdo à mostra, porque Heliandro, na hora h, puxou-lhe a peça superior do biquíni, é sua irmã Hesmênia, a quem tributei muitas tardes de amor solitário. O sujeito que a encoxa e que se vê apenas traços do rosto entre as irmãs é o já citado Heliandro. Tornou-se jogador de basquete e mora no Canadá onde treina um time universitário. Nos vemos todos os anos por ocasião do tributo que oferecemos ao Marcilio, um companheiraço, desenhista-ilustrador sem igual, que assumiu o ato corajoso de se despedir do mundo. Ao lado de Hesmênia e Heliandro, de cabelos corridos e olhos claros, de camisolão à beira do joelho, fumando um fininho, a mina mais descolada do colégio São Luiz: Laurindha. Filha de desembargador, teve três ou quatro maridos, mas nunca casou-se oficialmente. Próximo dela, nosso Bob Marley, o sarara Etevaldo. Tornou-se advogado e representa uma corporação petrolífera e vive viajando o mundo. Quem tirou a foto foi um caiçara com a Kodak 35mm do Otaviano, presente de aniversário que estreávamos. Eu e Adalgisa somos o casal ao fundo, caminhando de mãos dadas em direção ao espectador.

Claudio Domingos Fernandes

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Formado em Filosofia (Licenciatura), casado, dois filhos, trabalha na Secretaria de Educação de São Paulo, leciona Filosofia no Ensino Médio. Coordena Oficinas Culturais na Associação Cultural Opereta, onde ensina Italiano. É membro do conselho do Instituto de Formação Augusto Boal. É membro fundador da Associação Cultural Rastilho (A.CURA). Lançou "Vácuos Mundi" e "O Todo em Fragmentos". Facebook: Claudio Domingos Fernandes

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sexta-feira, 6 de abril de 2018

Administração Themer, por Claudio Domingos Fernandes


Em um maio de fins dos anos 90, um adolescente branco foi preso por tráfico. Ele voltava da escola. Apareceu morto num campo de futebol. Os policiais que o prenderam mirabolaram uma história de resgate, e se atribuiu a sua morte a execução de facções criminosas. Poucas pessoas se manifestaram contra o absurdo da história narrada pelos policiais. 

Josuelmo Santos, líder comunitário, presidente da Associação de Resistência da População Afrodescendente, foi um dos poucos a exigir esclarecimento a respeito das condições inexplicáveis da morte de um jovem sob responsabilidade da policia. Tanto fez que para desacreditarem-no, forjaram uma denuncia de desvio de recursos da associação. As pessoas mais próximas à Associação, descontente com seu interesse em defender um jovem branco, aderiram aos que o acusavam e passaram a exigir-lhe o cargo. 

Então, numa certa tarde deste maio, um certo Themer, propondo assumir sua posição na associação, assumiu o seguinte discurso: 
“de cada quatro pessoas mortas pela polícia, três são negras. Nossa causa é o povo preto da periferia. São nossos filhos que morrem todos os dias na guerra do tráfico, no fogo cruzado entre milícias, polícias e políticos pelo controle da comunidade. Nossa associação é pros manos é pras manas, pro povo preto. Deixa que os brancos clamem seus mortos, seus direitos. Devemos cuidar dos nossos.”
Josuelmo olhou para a assembleia com serenidade: 
“Camaradas, eu tenho uma causa, mas minha causa não me impede de enxergar que um ser humano foi morto de maneira covarde, não é um irmão preto, uma irmã preta, mas é um que morreu como nossos filhos morrem todos os dias. A proporção esta posta: são três negros a cada branco morto, mas a conta é sempre quatro seres humanos, quatro vidas, que se tornam quarenta, quatrocentas, quatro mil vidas ceifadas abrupta e brutalmente. Exigir a verdade para o Henrique, assassinado de maneira escusa, não me desvia de nossa luta. Ao contrário, ao garantir-lhe o direito à verdade, estou defendendo o direito de todos nós. Na luta por garantia de direitos não existe a minha causa, a sua causa, a causa do outro. A particularidade de nossa causa não nos deve tornar particularistas. É preciso a visão alargada, para além de nossa bandeira, uma visão que abranja a todos os que se tornam vítimas do descaso e da malicia dos poderes constituídos. Em nossa luta é preciso abarcar tantas outras causas: do direito à moradia à educação e à saúde, do direito à manifestação religiosa à opção sexual à igualdade dos gêneros nas relações de trabalho, do respeito à diversidade ao direito de a mulher sentir-se segura, no lar, no bar, no ônibus, no seu posto de trabalho, etc... Sem sermos capazes de sairmos de nosso gueto, não avançamos em nossas agendas. Se cada movimento se fechar em si, tornamos viável o totalitarismo, favorecemos o que deveríamos combater.” 
Josuelmo deixou a assembleia da Associação que ajudara a criar, arranjos políticos levaram Themer à presidência. 
De cada quatro pessoas mortas pela polícia, uma é branca. “Mas se a polícia matou é porque é bandido”, vamos repetindo, na administração Themer...
Claudio Domingos Fernandes

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Claudio Domingos Fernandes
Formado em Filosofia (Licenciatura), casado, dois filhos, trabalha na Secretaria de Educação de São Paulo, leciona Filosofia no Ensino Médio. Coordena Oficinas Culturais na Associação Cultural Opereta, onde ensina Italiano. É membro do conselho do Instituto de Formação Augusto Boal. É membro fundador da Associação Cultural Rastilho (A.CURA). Lançou "Vácuos Mundi" e "O Todo em Fragmentos". Facebook: Claudio Domingos Fernandes

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domingo, 4 de março de 2018

Depressão, por Joyce Gomes


Não se sabe ao certo quando se começa. Um dia começa e jamais terá um final. É um cessar de descontentamento. Choros e mais choros. Uma sensação de que nada é suficiente. Regado a uma depressão infinita. É uma vontade de dar fim ao próprio sentimento. É um contentamento não contente. Um chorar de loucura. É um clamar pela atenção. Mas atenção de quem? É um fim, fim de uma existência, de uma dádiva não seguida. Um perdoar, mas não perdoar. E o que se tem? Tristeza e uma vida desgraçada.

É um desejo de morrer. Não pelo que faz, mas pelo que se faz a fazer. E por tudo que será feito. E por todos que serão prejudicados com as verdades inverdades. E a pessoa depressiva não aguenta, não se aguenta.

Um momento de felicidade entregue a uma depressão louca e infundada. 

É a depressão e o choro em pessoa. E quando algo faz bem, manda-se embora e a pessoa acata. O que se quer? Um perdão, uma compreensão, a felicidade que há muito não se tem. 

Pode-se apenas pedir perdão. Perdão por tudo que se faz de errado. Perdão pelo que será feito. Mas, se mais uma vez você ficar sem falar com essa pessoa, ela morrerá. Morrerá de tristeza, de solidão... você se lembra de todas as coisas boas que foram faladas, nenhuma delas é o suficiente para você falar com o seu amigo?

Mil perdões é o que se pede. Só há uma solução para isso: aceitar. E fim.

Que tal recomeçar?

Joyce C. L. Gomes
21/11/2017

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Joyce Cristina Leme Gomes
Professora da Rede de Ensino de Poá, Graduada em Letras (UBC) e em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda (UMC). Conquista da Menção Honrosa e de Prêmios com o grupo Vibe Comunicação na UMC: Relatório Acadêmico "Do Fusca ao New Beetle: Trajetória de Campanhas (Menção Honrosa - 2009)"; Painel, Relatório e Campanha Alternativa "Marketing Esportivo no Futebol" (Prêmio Excelência - 2010); Painel e Campanha Publicitária "Associação Cultural Opereta" (Prêmio Excelência - 2011). Participou do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC/UMC) com a pesquisa "Trajetória de campanhas do Fusca e o seu impacto sobre o consumidor" (2010/2011). Foi voluntária, de 2011 a 2013, como Secretária na Diretoria Executiva, bem como na Comunicação da Instituição Cultural Sem Fins Lucrativos Associação Cultural Opereta. Conquista do Prêmio (2011) e da Menção Honrosa (2012) no 7º e 8º Prêmio Mogi News/ Chevrolet de Responsabilidade Social com o Projeto "Passos da Paixão", da Associação Cultural Opereta. Recebeu convite e teve 10 poemas publicados na coletânea “Palavra é Arte”, da Cultura Editorial (2014). Atualmente desenvolve os blogs Anderson BorgesBalcão da ArteGuitarra Flutuante e Joyce Gomes: Professora e Publicitária.

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sexta-feira, 2 de março de 2018

19 de Maio, por Claudio Domingos Fernandes


Acordou com o despertar do relógio. Levantou-se, tomou banho, barbeou-se, arrumou-se. Tomou café: pão integral, queijo fresco, suco de melancia, uma porção de granola. Folheou o jornal. Desceu ao jardim. Limpou canteiros, extirpou folhas e galhos secos, podou as roseiras, colheu rosas para a mesa de centro da sala. Recolheu o lixo, lavou o cachorro. Beijou a esposa, as crianças. Tomou outro banho. Almoçou. Beijou a esposa, as crianças. Saiu... Foi visto num salto do décimo oitavo andar de onde trabalhou normalmente no dia anterior. Acabou o janeiro branco.


Claudio Domingos Fernandes
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Formado em Filosofia (Licenciatura), casado, dois filhos, trabalha na Secretaria de Educação de São Paulo, leciona Filosofia no Ensino Médio. Coordena Oficinas Culturais na Associação Cultural Opereta, onde ensina Italiano. É membro do conselho do Instituto de Formação Augusto Boal. É membro fundador da Associação Cultural Rastilho (A.CURA). Lançou "Vácuos Mundi" e "O Todo em Fragmentos". Facebook: Claudio Domingos Fernandes


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quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Laurindha, por Claudio Domingos Fernandes


Couve refogada no alho, torresmo gordo, angu. Arroz, feijão preto, partes de porco, farofa. Vó, mãe, tia. As irmãs e as primas. Os tios pai, dominó. O primo, samba: Baden Powell, Luiz Ayrão, Agepê: Laurindha, o seu perfume, os lábios carmim. O sorriso, a voz, o molejo... “Ah se eu pudesse te abraçar agora/ Poder parar o tempo nessa hora/ Prá nunca mais eu ver você partir...” “Era a felicidade que acenava pra mim...” Nasci errante, sem um norte, sem um porto, um farol que me guie. Tenho apenas esses fragmentos de um desejo não ousado que em mim levo, seja onde eu for. Laurindha é o amor que existe em mim. E se aproveito o sono daquela que me acalanta e escapo é que em outros corpos apenas me consumo... Sou errante, sou sem rumo. E não sou de esquecer os lábios carmim de um amor que jamais ousei e persiste em mim.

Claudio Domingos Fernandes

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segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Silêncio, por Joyce Gomes

O silêncio bate à porta. Ninguém vem atender. O grito mudo é silêncio. O silêncio bate a janela. As portinholas voam e batem na parede, mas ninguém pode ouvir. O silêncio voa junto do ar, do vento..., mas ninguém pode sentir. O olhar transborda de silêncio. O amor, a paz, a inquietação... tudo é possível no silêncio.

O recomeço vem depois da quietude. Mas a plenitude vem depois do recomeço? Sempre é tempo de recomeçar, de iniciar... o princípio pode ser todas às vezes. Depende do olhar, do amar, do falar. Ah! O amor... 

A batida do coração, ninguém pode ouvir. Mas quando para, todos estão a chorar.

“Silêncio! ”

“Mas eu quero falar! ”

“Mas eu não quero te ouvir, fica quieto! ”

“Por favor, só mais uma frase...”

“Silêncio! ”

E a boca fica muda, o coração matraca saltitando.

“Eu nasci para te amar”.



Joyce Gomes

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Joyce Cristina Leme Gomes
Professora da Rede de Ensino de Poá, Graduada em Letras (UBC) e em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda (UMC). Conquista da Menção Honrosa e de Prêmios com o grupo Vibe Comunicação na UMC: Relatório Acadêmico "Do Fusca ao New Beetle: Trajetória de Campanhas (Menção Honrosa - 2009)"; Painel, Relatório e Campanha Alternativa "Marketing Esportivo no Futebol" (Prêmio Excelência - 2010); Painel e Campanha Publicitária "Associação Cultural Opereta" (Prêmio Excelência - 2011). Participou do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC/UMC) com a pesquisa "Trajetória de campanhas do Fusca e o seu impacto sobre o consumidor" (2010/2011). Foi voluntária, de 2011 a 2013, como Secretária na Diretoria Executiva, bem como na Comunicação da Instituição Cultural Sem Fins Lucrativos Associação Cultural Opereta. Conquista do Prêmio (2011) e da Menção Honrosa (2012) no 7º e 8º Prêmio Mogi News/ Chevrolet de Responsabilidade Social com o Projeto "Passos da Paixão", da Associação Cultural Opereta. Recebeu convite e teve 10 poemas publicados na coletânea “Palavra é Arte”, da Cultura Editorial (2014). Atualmente desenvolve os blogs Anderson BorgesBalcão da ArteGuitarra Flutuante e Joyce Gomes: Professora e Publicitária.


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segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Coisas de Bananópolis, por Claudio Domingos Fernandes


Na noite de 19 de maio do ano de 1968, um corpo foi achado caído e expirado. Sem identificação, sepultaram-no como indigente. Antes, porém, por praxe de oficio, o delegado de plantão requisitou perícia para determinar a causa da morte. O resultado foi “morte indeterminada". 

No ano de 1998, ocorria uma disputa pela direção da Associação Esportiva de Bananópolis. Um amigo do delegado concorria com poucas chances contra o adversário. Mas a vitória do amigo interessava ao delegado. Assumindo uma diretoria qualquer na Associação, teria oportunidade de aproximar-se das personalidades mais influentes da cidade. O delegado se prontificou, então, a ajudar o amigo, arquitetando um plano para tirar o adversário da disputa. Levou à Tribuna das Bananas o caso do indigente, anunciando estar seguindo uma linha de investigação que garantia que o finado indigente, fora assassinado. E o assassino, era ninguém mais que o futuro presidente da Associação Esportiva de Bananópolis. 

“Mas”, alguém questionou, “se não se pode determinar a causa da morte do sujeito, como se pode considerá-lo assassinado?” 

Para isto o delegado tinha uma resposta inequívoca: 

“tenho um testemunho que diz ter ouvido o futuro presidente da Associação Esportiva, em uma peleja, ameaçar um certo tipo que anda desaparecido”. 

“Então há uma identificação do indigente?”, perguntou um outro. 

“Tenho plena convicção que se trata do tipo desaparecido”, respondeu, convincente, o delegado. 

Nos meses seguintes, dia sim, dia não, se lia na Tribuna das Bananas a condenação do virtual presidente da Associação Esportiva de Bananópolis pelo assassinato de um certo tipo desaparecido. 

Quando o caso chegou à corte, coube ao juiz, primo (deve-se ressaltar) do amigo do delegado, apenas validar a sentença e computar a pena. O fato é que, por esses dias, o dito desaparecido, deu o ar da graça. Informou que após a peleja com o incriminado recebeu uma promoção da empresa e a foi representar no exterior e que estava de passagem por Alto Monte apenas para se reconciliar com o incriminado, a quem admirava muito. 

Indagando-se o juiz sobre a situação do incriminado, o mesmo saiu-se com essa: 

“temos um homem morto, que certamente foi assassinado. E todos nós estamos convictos: o Sr. Inácio Silva é, devido suas origens e posições ideológicas, um costumas criminoso. Diante do posto, mantemos a sentença”.

Claudio Domingos Fernandes

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sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Racismo, por Claudio Domingos Fernandes

0,1% mais rico da população se apropria de 68% do crescimento da renda nacional. E a alta parcela da renda dos mais ricos, que é isenta de Imposto de Renda, nos deixa ainda mais distantes de países com uma distribuição mais igualitária. ( http://www1.folha.uol.com.br/coluna...)

Embora, entre nós, o racismo atinja com maior evidência as pessoas pretas, eu não entendo o racismo como um embate de pessoas brancas contra pessoas pretas. O racismo é uma teoria política em defesa da expropriação econômica, política, cultural que condena cerca de 80% das pessoas a viverem em condições de pobreza ou extrema pobreza. A pobreza é uma produção econômica, o racismo é sua justificação. Concepções raciais existem desde a primeira injustiça social: Quando alguém por sua força e ou engenho, se declarou senhor e os demais a ele se submeteram. Sempre se precisou justificar a dissimetria entre a opulência dos que governam e a extrema carência dos que se submetem ao governo. Sempre se precisou explicar porque um sujeito come três pães, e uma comunidade inteira apenas migalhas. De tal modo, imiscuído com doutrinas religiosas e filosóficas, o racismo sempre se fez presente como justificativa possível, não para as diferenças entre os homens, mas para as desigualdades sociais. E ao fim do século XIX, “concederam ao pensamento racista dignidade e importância, como se ele fosse uma das maiores contribuições espirituais do mundo ocidental” (ARENDT, H. A origem do Totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras. 2002, pp. 189). 

Hoje, o racismo encontra guarita segura nas teorias meritocráticas, que defendem com indisfarçável arrogância o direito, por mérito (quase divino) dos “melhores” postos na sociedade, aos grupos sociais que detêm o poder econômico e político e determinam os critérios de acesso e produção do conhecimento, como os critérios de ascensão social.

Racismo é uma justificativa de grupos que se consideram onipotentes, que se autorizam expropriar e explorar outros grupos sociais. Como ação política promove a exclusão econômica e social e nega os princípios da igualdade entre os homens, atacando os direitos humanos e submetendo três quartos da população humana a viverem em condições de privação e miserabilidade. 

Negra não é a condição de desprestigio econômico, político, cultural e social apenas de homens e mulheres de pele escura – por questões históricas ainda não superadas, não desconsideramos que entre nós esta é a realidade mais pungente, e que quanto mais escura a pele da pessoa mais ela carrega os efeitos imorais da expropriação e exploração dos opulentos senhores da economia, da política, da produção de saberes –, negra é a realidade social em que se encontram todos aqueles que por sua condição econômica, social e política são, antes de tudo humilhados, desvalorizados como pessoas, destituídos de seus direitos fundamentais: educação, saúde, moradia, trabalho, lazer, segurança, sustentabilidade. E não obstante estas carências de ordem política, são marginalizadas, criminalizadas, execradas, executadas. 

Negra não pode ser um termo que encerra um grupo humano e o contrapõem a outro grupo, pretensamente hegemônico. Negra é a condição econômica, social, cultural e política da imensa maioria dos homens e mulheres que ainda não perceberam que certos acirramentos ideológicos, certos conflitos políticos, certas guerras, são estratégias políticas, apeadas em justificativas raciais.
O acirrado debate sobre falsas diferenças entre homens e mulheres, entre brancos e pretos, escondem-nos as injustiças sociais, nos dividem em bandeiras diversas. E este acirramento e essa divisão de nossos interesses: que haja uma melhor distribuição dos recursos econômicos, da participação política, do acesso à apreensão dos bens culturais universais, promovendo igualdade e justiça social, interessa e é motivado pelos racistas de fato: os que defendem o status quo da economia, da política, da produção de saberes como mérito e não como o que é de fato: expropriação. 

Se um meu vizinho, ou mesmo um estranho, num debate de coisas rasas ou mesmo graves, no calor das discussões me injuria devido a cor de minha pele, ao meu sexo ou minha origem, eu não o considero racista, embora a injuria seja. Ela esta colocada nele e talvez ele não se de conta disso. Dependendo do lugar e da hora, o sujeito que me chama de “negro safado”, ou “preto dos infernos” eu apenas o olho com comiseração e lamento sua estultícia. Mas se o sujeito é conivente com as doutrinas políticas, econômicas, culturais que separam os humanos e os classificam, se ele empresta seu pensamento às obscenas escusas que mascaram as desigualdades sociais e suas injustiças, mesmo num instante de inconsciência, o que expressa é uma afronta, uma ignomínia a ser combatida.

A injúria de meu vizinho não é racismo. É uma incompreensão de si mesmo. Já as teorias neoliberais de qualquer ordem são racistas e servem a justificar um sistema expropriador e excludente.

Em toda riqueza há o sangue, o sofrimento, a submissão de centenas de seres humanos. É preciso uma justificativa para a assimetria entre os que se empanturram ao esbanjamento e os que colhem sua sobrevivência em lixões. DEUS, RAÇA, MÉRITO, sempre serviram a tamanha infâmia.

Claudio Domingos Fernandes

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segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Por que celebrar Zumbi de Palmares?, por Claudio Domingos Fernandes


Palmares é o caso exemplar do enfrentamento inter-racial. Ali, negros fugidos dos engenhos de açúcar ou de vilas organizaram-se para si mesmos, na forma de uma economia solidária e uma sociedade igualitária. (Darcy Ribeiro. O Povo brasileiro, A formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras. 1997, pp. 173)
 ... Olha só aquele clube que da hora,/ Olha o pretinho vendo tudo do lado de fora/ .../ Ele apenas sonha através do muro... (Racionais MC´s: Fim de Semana no Parque)


Ainda há quem coloque a questão sobre o porquê celebrar Zumbi de Palmares. Alguns veem em tal celebração uma afronta, outros revanchismo. Há quem desdenhe e há quem pense em vitimismo. O certo é que Zumbi, Palmares, ainda assombra nossa sociedade patriarcal e escravista. A titulo de pontuar o porque das comemorações de Zumbi de Palmares e da Semana da Consciência Negra, o presente texto acompanha a obra de Lilia M. Scwarcz e Heloisa M. Starling, Brasil Uma Biografia. Não o seguiremos, porém, de forma literal. Procuramos explicitar, algumas vezes, o não dito nos relatos das autoras. 

Então, por que celebrar Zumbi de Palmares?

Porque em 300 anos milhões de homens e mulheres não viajaram espontaneamente de suas terras com o fito de povoarem outras terras pelo mundo. Não! Foram brutalmente extraídos de seu solo, foram, como animais, encerrados em porões de navios e traficados como mercadoria-moeda num negócio que subsidiou o nascente capitalismo. E o Brasil recebeu 40% dos africanos impiedosamente arrancados de suas terras. Cerca de 4 milhões de homens e mulheres aqui aportaram para servirem de mercadoria e trabalharem em regime de escravidão.

Esses homens e mulheres, os que resistiram a longa travessia marítima, aqui foram marcados pela água do batismo e pelo ferro em brasa. Tiveram elos culturais e familiares rompidos. Foram extorquidos do próprio corpo, tornado propriedade coisa-moeda de Senhores de engenho. E sob açoite, sevicia e castigos de toda sorte, produziram as riquezas de seus senhores e serviram como instrumento de prazer e gozo sádicos desses mesmos senhores. Muitos morreram de exaustão, subnutrição, sob tortura, suicídio. É em memória deste povo vilipendiado e impiedosamente massacrado que se celebra Zumbi de Palmares.

Porque a escravidão enraizou-se de tal forma que deixou de ser privilégio de grandes senhores de engenho. “Padres, militares, funcionários públicos, artesãos, taberneiros, comerciantes, pequenos lavradores, pobres e remediados e até libertos possuíam escravos...” A escravidão “moldou condutas, definiu desigualdades sociais, fez de raça e cor marcadores de diferenças fundamentais, ordenou etiquetas de mando e obediência” e criou uma sociedade condicionada pelo paternalismo e por um patriarcalismo obtuso, mesquinho, impiedoso. Nossa elite é uma horda de sádicos... 

Quando não mais serviam, pois o sistema econômico passou a exigir nova forma de produção e de mão de obra, homens, mulheres, crianças, idosos, doentes foram libertados e abandonados à própria sorte sem instrução, sem direito à terra, sem direitos políticos, sem assistência econômica, e carregados de injurias (“coisa de preto”, por exemplo, como forma de humilhação). E, após cem anos de sua liberação, “ainda são pouco numerosos os seguimentos da “população de cor” que conseguem se integrar, efetivamente, na sociedade competitiva e nas classes sociais que a compõem”. E “a ideia da ‘democracia racial’ acabou sendo expediente inicial (para não se enfrentarem os problemas decorrentes da destituição do escravo e da espoliação final de que foi vítima o antigo agente de trabalho) e uma forma de acomodação a uma dura realidade (que se mostrou com as “populações de cor” nas cidades em que elas se concentravam, vivendo na piores condições de desemprego disfarçado, miséria sistemática e desorganização social permanente)” (Florestan Fernandes. O Negro no mundo dos Brancos. São Paulo: Global, 2006, p. 46). Ainda, “quanto mais escura a pele do brasileiro, da brasileira, mais se sente o fosso de nossas desigualdades e as marcas ingentes da violência institucional e do sadismo de determinados segmentos sociais.

Porque há um extermínio sistemático de nossa gente nas periferias e porque se persegue indisfarçadamente adeptos das religiões de matriz africana, se procura impedir nosso acesso à universidade pública. Por tudo isso, celebramos Zumbi de Palmares.

Zumbi de Palmares não é um herói; é um símbolo de resistência, de luta, de denuncia contra o que persiste de preconceituoso e odioso contra os homens e mulheres de pele escura e contra as manifestações religiosas e culturais de matriz africana.

Celebrar Zumbi, comemorar a Semana de Consciência Negra é recordar que, não obstante todas as adversidades, todo desrespeito a sua dignidade, todo sofrimento sofrido, os extraviados de suas terras e traficados como mercadoria não se renderam à barbárie e ao sadismo de seus senhores. E fizeram mais do que apenas sobreviver, organizaram-se, lutaram e estabeleceram um espaço em que se pode sonhar com liberdade e resgate de sua identidade. Palmares foi uma brecha de esperança aberta no coração do sofrimento imposto pelo sistema escravista. “Para fugir da condição de “peça” [coisa-moeda-objeto sádico], os escravizados procuraram nas brechas do sistema espaços para recriar suas culturas, [cultivar] desejos, sonhar com a liberdade e com a reação”, restabelecer seus laços com seus orixás e ancestrais, dar-se a dignidade roubada. “Jamais abriram mão de serem agentes e senhores de suas vidas... [E] a resistência escrava deu origem a mocambos ou quilombos...” Celebrar Zumbi de Palmares é reviver está brecha e anunciar a esperança de construirmos uma nação livre do preconceito e das injurias contra os homens e mulheres por causa da cor de suas peles.

Palmares foi o maior e mais persistente quilombo e significou uma alternativa concreta à ordem escravista... “Tornou-se um problema real e bastante amedrontador para o [escravismo colonial e para as autoridades, e precisava ser combatido...” A queda de Palmares e a execução de seu maior líder, Zumbi, serviram às autoridades coloniais de ontem e serve aos autoritários de hoje como modelo para a repressão e o sujeitamento das camadas mais pobres de nossa nação. A degola de Zumbi ilustra o que ocorre aos que reagem à sádica exploração não apenas econômica, da grande massa de brasileiros e brasileiras.

Aos que negam ao trabalhador condições dignas de trabalho, direitos constitucionais, liberdade de reivindicar respeito às suas crenças e tradições culturais, reconhecimento econômico e favorecimento de acesso à formação de qualidade, celebrar Zumbi não é incompreensível: é uma afronta; uma ameaça.

Para os milhares de homens e mulheres, ainda que não saibam – ainda hoje extorquidos de seus corpos, de seus sonhos, de seus desejos, espezinhados, ridicularizados, humilhados, por uma elite econômica, política e religiosa, patriarcal, mesquinha, tosca –, Palmares, e seu líder maior Zumbi, se converteram em luta por inclusão social, conquista de direito, resgate de identidade cultural de respeito a seus cultos, desejo de uma sociedade menos desigual.

Enquanto houver injustiça, enquanto os homens e mulheres de nossas classes populares se sentirem ameaçados, intimidados, desrespeitados por sua cor de pele e por suas tradições religiosas, por suas manifestações culturais, que viva Zumbi e que se faça memória de Palmares.

Em resumo, celebrar Zumbi é manter viva a história de dor e sofrimento de homens e mulheres que não viajaram por vontade própria, mas, feito mercadoria, foram desterrados e tornados escravos em terras que não eram sua. Não podemos esconder o sangue que se derramou para alimentar os sonhos de riqueza e poder de nosso patronato e nossa elite política. Não podemos esconder que ainda se derrama sangue em nossas periferias e a vitima são nossos filhos. Para nós celebrar Zumbi de Palmares é, como dizem Mano Brown e Edy Rocky, produzir “um raio X do Brasil”.

Claudio Domingos Fernandes

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Claudio Domingos Fernandes
Formado em Filosofia (Licenciatura), casado, dois filhos, trabalha na Secretaria de Educação de São Paulo, leciona Filosofia no Ensino Médio. Coordena Oficinas Culturais na Associação Cultural Opereta, onde ensina Italiano. É membro do conselho do Instituto de Formação Augusto Boal. É membro fundador da Associação Cultural Rastilho (A.CURA). Lançou "Vácuos Mundi" e "O Todo em Fragmentos". Facebook: Claudio Domingos Fernandes

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domingo, 5 de novembro de 2017

Eu Não Sou Negro, por Claudio Domingos Fernandes

Lincharam um homem
Entre os arranha-céus,
(Li no jornal)

Procurei o crime do homem
O crime não estava no homem
Estava na cor da sua epiderme
Solano Trindade, Civilização branca, nova Alexandria: 2007

Dia destes, meu filho chegou triste da escola. Não quis comer, desinteressou-se do cachorro, exilou-se acabrunhado, silente, em seu quarto. Algo incomum num menino vivaz, espontâneo, falante. Procurei saber o que se passava: “Nada, quero ficar sozinho”. Deixei-o na dele, precisava ocupar-me de uns relatórios, revisar um artigo. Um pouco antes do café da tarde, ele se acostou a mim e ficou me observando terminar minha revisão. Perguntei-lhe: “Tudo bem? O que houve?” Não obtive resposta. “Deve ter balas ali na minha mala” apontei-lhe a mala acostada a uma estante. Pediu-me colo. “O que é nefando? E lúgubre?”, perguntou-me com voz chorosa, olhar apagado. “Lúgubre se diz de uma pessoa triste, de uma situação triste. Nefando é algo indigno de nomear, é algo do qual não se fala, porque é algo muito vergonhoso.” “Não quero ser negro!” falou-me com voz magoada. “E porque? O que tem de errado ser negro?”, perguntei-lhe estupefato. “A professora disse..., pediu pra gente pesquisar no dicionário. E o dicionário diz que negro é sujo, encardido, lúgubre, nefando. Eu não sou sujo. Eu não quero ser negro...: não quero ser negro!” “Querido”, disse-lhe, “você tem razão, nessas acepções nós não somos negros e os dicionaristas deveriam rever-se.” Expliquei-lhe que, talvez a professora não tenha alcançado seu objetivo, e procurei esclarecer-lhe que negro não era uma condição, mas uma posição ante a vida e que a cor de nossa pele não nos determina. [...]. Dormiu em meu colo. Enquanto me preparava um café, fiquei elucubrando o tema, que me levou a produzir o que segue***

“(…) O que os racistas têm que fazer é tratar de encontrar em seus próprios corações em primeiro lugar porque foi necessário ter um negro, porque eu não sou um negro eu sou um homem (…) Se eu não sou o negro aqui, e vocês o inventaram, vocês os racistas tem que descobrir por que. E o futuro deste pais depende disso, se você é capaz ou não de fazer essa pergunta”. James Baldwin, 1963.

Nós somos humanos. Entre humanos não há raças. Há diferenças de gênero, sociais, econômicas, culturais, há desigualdades de oportunidades, de acesso aos bens produzidos, aos recursos naturais, ao uso da terra,ao conhecimento. Desde sua origem, os humanos espalham-se por todo planeta, ajustando-se a diversificados relevos geográficos e variadas temperaturas e intempéries climáticas. Algumas bastante inóspitas. As tonalidades de pele dos humanos são características de sua adaptação a essas diferenças geográficas e climáticas, e à miscigenação. De tal modo a tonalidade de pele dos humanos varia em uma escala de matizes consideráveis. Mas seja o sujeito de pele mais clara possível, seja o de pele mais escura possível, pertencem a uma e mesma espécie. E a espécie humana não se divide em raças. 

A divisão dos homens em raças é uma invenção covarde, maliciosa e, ela sim, nefanda, de homens sem escrúpulos, gananciosos, orgulhosos de suas barbáries. Homens guiados pela cobiça, pela torpeza, cegados pelo desejo de tudo possuir. Procuraram na invenção das raças uma justificativa às suas ignomínias.

Os dicionaristas deveriam rever o verbete Negro. Na verdade deveriam aboli-lo, pois o negro, como condição, não existe. 

O racismo existe e o combato. Ele é responsável pelo extermínio dos povos nativos, ontem e hoje. Pelo ingente tráfico de homens e mulheres do continente africano, aqui tornados escravos. O racismo está presente na persistente negação à terra aos nativos e quilombolas, no extermínio sistemático destes povos e de jovens de nossas periferias, na indisfarçada insatisfação de setores da sociedade com o ingresso de nossos filhos da nas universidades públicas. Na história recente da humanidade não podemos esquecer Auschwitz, sua face mais nefanda.

O racismo existe! O negro não! O negro, como raça, é uma invenção, Na citação de James Baldwin eu usei racista, no lugar de branco do texto original. É preciso considerar que nem todo homem branco é racista e que o racismo não é uma peculiaridade de homens brancos. Também o branco é uma invenção. A raça não existe, existe o racismo. A cor de minha pele não me define, a raça só existe como disposição a lutar contra toda forma de ódio e contra toda tirania.

Neste sentido, sem ser religioso, talvez se possa dizer, que ter raça é ser instrumento de paz e levar amor onde há ódio..., esperança onde há desespero, alegria onde há tristeza, luz onde há trevas, liberdade onde há opressão, dignidade onde há humilhação, partilha onde há fome e exploração...

O que segue escrevo para meu filho que tem razão: nós não somos negros, mas temos raça. 

MENINO NÃO CHORE A COR DE TUA PELE

Menino não chore a cor de tua pele, não chore teus cabelos, o odor de teu suor. Não chore a ignorância dos que odeiam a si mesmos antes de odiarem a ti.

Brinca, menino, com teus sonhos. Faz do vento teu companheiro, da tarde caindo, uma canção. Corre ao lombo de um cavalo, banhe-se nas águas do rio, converse com os pássaros e os chame: irmãos. Cultive, menino, a paz.

Raça, menino, não é uma condição. É postura firme, corajosa contra a opressão. É luta de quem luta contra o ódio de quem primeiro se odeia e destila-se contra uma nação.

Menino não chore a cor de tua pele. Ela é tua proteção. Não desdenhe os que, por pura mediocridade e hipocrisia, destilam desinformações, cativam os ignorantes e os que desejam poder e riqueza, e alimentam ódio em seus corações. Não os desdenhe, repito, menino. Mas, dê conta dos que te amam e te ensinam a amar como escolha e responsabilidade, como solidariedade...

Dê conta dos que te amam, menino, e brinque com a esperança; arranque-a de teus livros. Não és a cor de tua pele e se tens raça é coragem, é bandeira que se impunha contra a dor, a fome, a humilhação. Tem raça quem se impõem contra a opressão.

Não chore a cor de tua pele menino, não chore teu cabelo, o odor de teu suor. Não tenha vergonha do que não és. Brinca, que é tempo de tua infância. Corre com o rio ou livre no lombo de um cavalo, suba em árvores, converse com pássaros, cante às flores e imagine em cada nuvem povos que se abraçam e dividem o pão. Lembre de teus ancestrais, de seus grilhões, da expropriação de seus sonhos, seus desejos e paixões; da luta que travaram, e mesmo sem condição de vencer a vilania, da resistência que impuseram. Raça é fazer memória e resistir; não é uma condição, é uma postura contra o extermínio de nossos jovens em terras quilombolas, nas reservas nativas e nas periferias de nossos centros urbanos. 

Não é a cor de tua pele que te faz homem menino. É amar a vida, a liberdade, uma só humanidade. E raça é disposição a lutar contra toda tirania, contra a insensatez dos que expropriam, dos que traficam vida, negam direitos, produzem fome e sofrimento e executam homens e mulheres por ambição.

Tenhas raça menino contra toda opressão. Mas agora brinca, brinca e sonha, e veja nas estrelas ao redor da lua homens partilhando o pão. Não és tua cor menino: és esperança em nosso coração.

Claudio Domingos Fernandes

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Claudio Domingos Fernandes
Formado em Filosofia (Licenciatura), casado, dois filhos, trabalha na Secretaria de Educação de São Paulo, leciona Filosofia no Ensino Médio. Coordena Oficinas Culturais na Associação Cultural Opereta, onde ensina Italiano. É membro do conselho do Instituto de Formação Augusto Boal. É membro fundador da Associação Cultural Rastilho (A.CURA). Lançou "Vácuos Mundi" e "O Todo em Fragmentos". Facebook: Claudio Domingos Fernandes

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